08/11/2017

begin again: capítulo 18


Past

O apartamento de Joseph fica no último andar de um conjunto de casinhas. Estou do lado de fora, segurando uma garrafa de vinho branco gelado, deixando a expectativa tomar conta de mim como uma brisa bem-vinda. Na rua atrás de mim, carros param e buzinam impacientemente, um ruído que rasga o ar quase calmante. Espero, com uma das mãos curvadas em torno da garrafa e a outra em um punho assustado demais para se levantar e apertar o botãozinho prateado que vai avisar Joseph e sua mãe da minha presença.
Por que estou aqui?
É apenas um jantar. Uma refeição com um amigo e sua mãe. Não é diferente de uma noite com Selena e Nicholas, afinal de contas. E o próprio Simon está fora em algum lugar sem mim, sem se preocupar em ligar para ver como estou, ou mesmo se dignar a responder meus e-mails. Por isso, eu não deveria me sentir culpada, deveria? No entanto, hesito, parada nos degraus de concreto que levam à porta preta e brilhante, sentindo o aroma das ervilhas-de-cheiro que emana das floreiras suspensas.
Há uma parte de mim que quer girar nos calcanhares, descer diretamente os degraus e entrar em um táxi. Ir para longe da loucura e de volta para minha realidade. Mas a realidade que eu quero não existe mais, se é que já existiu. Estou começando a pensar que meu casamento estável e marido que me apoia são produtos da minha imaginação febril, na vida adulta, o equivalente a um amigo imaginário.
Uma mentira reconfortante.
O som estridente de uma sirene de polícia a distância me traz de volta dos meus pensamentos, e percebo que estou aqui em pé há muito tempo. Engolindo o resto do medo, finalmente aperto o botão do apartamento 3, meu dedo ainda trêmulo quando recuo a mão. No instante que leva para Joseph atender, o desejo de fugir vai crescendo, e eu estou a um fio de cabelo de correr pela rua quando sua voz sai como um estalido do interfone.
– Alô?
Eu me aproximo.
– É a Demi.
– Pode subir. Terceiro andar. – um zumbido seguido por um clanc me diz que a porta da frente foi destrancada. Empurro-a com cuidado e entro num corredor vazio que ecoa com cada clique dos meus saltos sobre o chão de madeira. Coloco o pé no degrau inferior e desejo que passasse mais tempo na academia do que passo pensando nela, porque agora três lances de escada me aguardam como uma montanha assustadora.
Quando chego ao andar dele, estou tão desgastada que esqueço o medo. Pelo menos até que a porta se abra. Joseph aparece pela abertura, seu cabelo penteado para trás, afastado do rosto, vestindo um jeans escuro limpo e uma camisa preta com as mangas arregaçadas até os cotovelos.
– Oi. – ele dá um passo adiante e sua testa se vinca. Suas sobrancelhas se aproximam quando ele olha para mim. – Você está bem?
Ainda estou com falta de ar, meu coração bate forte no peito.
– Eu estou um pouco... fora de forma.
Ele morde o lábio como se estivesse tentando suprimir um sorriso. Se eu tivesse algum oxigênio de sobra, eu perderia o fôlego.
– Deixe-me segurar isso para você – diz ele, pegando a garrafa de vinho. – Entre, entre.
A primeira coisa que noto é como o apartamento é claro e arejado. Embora seja quase crepúsculo, o sol da tarde ilumina a sala como se ainda fosse meio-dia. Faz sentido, imagino, que ele fosse escolher viver em algum lugar com boa luz. Afinal, ele é um artista.
Estou tão ocupada olhando em volta que levo um minuto para perceber a senhora de corpo mignon que vem se juntar a nós, uma taça de vinho na mão e um sorriso nos lábios.
– Mãe, esta é a Demi. Demi, esta é a minha velha mãe. – há uma cadência sarcástica em sua voz.
Ela bate no braço dele.
– Pare com isso, seu pestinha, você sabe a droga do meu nome. – quando ela olha para mim é toda doçura e leveza. – Pode me chamar de Denise.
– É um prazer conhecê-la, Denise.
– Igualmente. É sempre um prazer conhecer uma das amigas do Joseph. – seus olhos são da mesma cor que os do filho: um castanho meio esverdeado profundo. – Joseph, pare de ficar zanzando e traga uma bebida para sua amiga.
Ela o repreende com humor e ele leva da mesma maneira, tirando um chapéu imaginário para ela antes de piscar para mim. Quando Joseph entra na pequena cozinha no final da sala de estar, não posso deixar de admirar a maneira como seu jeans agarra no traseiro.
– Vamos sentar? – pergunta Denise.
Tiro os olhos da bunda do filho dela.
– Seria ótimo.
Mal me sentei no sofá de couro surrado e ela já começa a falar. Está empoleirada em uma poltrona bem estofada à minha frente.
– Joseph me disse que você trabalha em uma clínica de drogas. Você gosta de lá? Parece ser um trabalho árduo.
– Não é tão ruim. Trabalho com crianças, não com os dependentes, por isso não vejo o pior lado.
Joseph me dá uma taça de vinho e se senta ao meu lado.
– Ela já entrou no interrogatório?
– Cale-se, idiota. – não há um sorriso em seus lábios e presumo que é mesmo um insulto. – É o único jeito de eu descobrir o que você anda fazendo. Afinal, você nunca me liga.
Joseph cruza o olhar com o meu.
– Uma vez por semana. Todos os domingos, às seis, ou sou um homem morto. 
– Ele me encaixa na agenda como se eu fosse uma visita ao dentista – ela me diz. – Isso é jeito de um menino tratar sua mamãe?
Há carinho nos insultos mútuos, e não posso deixar de sorrir. Eles parecem ter o tipo de relacionamento que eu só poderia sonhar em ter com meus pais. Acho que poderia gostar da mãe de Joseph tanto quanto gosto dele.
Eles enfim param de falar por tempo suficiente para respirar, e Joseph diz que vai começar a preparar os bifes. Ele aceita minha oferta de fazer a salada, e nós trabalhamos na cozinha, cortando e temperando, enquanto conversamos.
– Sinto muito sobre minha mãe. Às vezes ela não dá trégua.
– Ela é adorável. – tomo um gole de vinho e me apoio na ilha da cozinha. – Você tem sorte de tê-la.
Os cantos dos olhos dele se enrugam.
– Tenho mesmo. Não sei o que eu faria sem ela. – sua voz se aprofunda. – Naquele verão... quando tudo aconteceu. Deus, ela era como uma rocha. Acho que eu teria desistido sem ela.
Olho para baixo, sentindo um puxão no meu estômago tão forte que dói. Eu deveria estar contente que ele tivesse encontrado apoio quando eu não encontrei nenhum. Uma torcedora em vez das críticas que tive de suportar. Mas se for ser sincera, há algo irritante em saber que ele teve o apoio da mãe, enquanto tive meses de silêncios raivosos e recriminações.
Quando meu pai me buscou na faculdade e me levou para casa naquele verão, eu era uma vergonha para os dois. Eu os decepcionei. Eles tinham enviado orgulhosamente sua linda filha nota dez para a universidade e a receberam de volta como um fracasso envolvido com drogas, e o centro de uma tragédia nacional. Eu fui o segredinho sujo deles naquele ano, escondida em casa.
Não importa o quanto eu tente, a dor nunca cicatriza por completo. Ainda há uma pequena casca que sai com muita facilidade.
– Você está bem? – ele pergunta.
Respiro fundo, tomo mais um gole longo de vinho.
– Estou. – a palavra sai como um suspiro. – Simplesmente odeio me lembrar do que aconteceu. Pensar sobre aquilo ainda dói.
Ele pega minha mão.
– Eu sei, acredite em mim, eu sei. Passei anos desejando nunca ter dado aquele ácido a ele. Que eu tivesse dado ouvidos quando ele disse que estava passando mal. Às vezes ainda sonho com ele.
Não há necessidade alguma de Joseph me dizer o que são pesadelos, porque sei o que eles são. As mesmas imagens terríveis cintilam pela minha mente adormecida. A festa, a música, a dança. A sensação de que poderíamos governar o mundo com o amor e a paz. A maneira como ignoramos o que estava acontecendo diante dos nossos olhos fora de foco.
Digby não estava com calor ou com sede. Ele não estava apenas batendo papo com a gente. Enquanto dançamos noite afora, sob o efeito do ecstasy e Deus sabe do que mais, ele estava morrendo. Ele foi esbarrando na multidão, talvez apertando o peito, seu coração lutando contra os efeitos das substâncias.
Perdendo grandiosamente a batalha. Éramos os amigos dele, mas não estávamos lá quando ele precisou. Nós o deixamos morrer sozinho em um campo de grama enlameado.
Enquanto estávamos dançando.
Essa noção é muito pior do que o caos que aconteceu depois. As investigações e o frenesi da mídia, seguido pela influência inapropriada do dinheiro dos pais dele. O fato de que levamos toda a culpa pela morte dele, aos olhos da imprensa e da universidade, parecia carma.
– Demi? – Joseph aperta minha mão suavemente. Retribuo o gesto, engolindo a bile que se juntou na minha garganta.
– É melhor continuarmos com o jantar, não queremos matar sua mãe de fome. – começo a picar tomates, atravessando a pele rosada com a faca afiada.
Mas ele não se mexe, apenas fica ali parado e olha para mim até que eu esteja envergonhada o suficiente para parar.
– Você sabe o que está fazendo, não sabe?
– Cortando tomates?
– Fugindo. Você até mesmo tem um tom de voz específico quando muda de assunto. Leve e animado, como se seu trabalho fosse animar todo mundo.
O impacto das palavras é tão forte que quase machuca. É como se ele me conhecesse, pudesse ver através da minha baboseira e entender quem eu sou por baixo. Como se ele quisesse romper o escudo que construí cuidadosamente em torno de mim mesma, a máscara bonita que mostro para o resto do mundo. Se isso é verdade, tenho medo de que ele encontre algo podre por baixo.

***

Acho que estou me apaixonando pela mãe de Joseph. Denise é uma mulher energética, uma força da natureza que nunca perde a intensidade. Ela passa a maior parte da noite disparando tiradas bem-humoradas em Joseph, as quais ele suporta alegremente, e fico sentada, sentindo seu amor mútuo me envolver como um cobertor quentinho e macio. Consegui sacudir para fora de mim a angústia que estava sentindo mais cedo, para me juntar à provocação sobre a bagunça geral de Joseph. Ele protesta em voz alta quando digo à Denise que ele andou limpando o apartamento durante toda a semana.
Quando ele desaparece no banheiro, ela se vira na cadeira e sorri para mim.
– Há quanto tempo você e Joseph se conhecem? – ela olha minha mão esquerda, e sei que ela está vendo a aliança.
– Ele começou o voluntariado na clínica há alguns meses, mas eu o conhecia antes. Na faculdade. – uma sombra encobre os olhos dela ao ouvir minhas palavras.
– Você estava lá quando aquele pobre garotinho morreu?
Confirmo.
– Uma tragédia. – ela balança a cabeça lentamente. – E também tudo o que aconteceu depois. Você ouviu que Joseph foi expulso?
Engulo em seco e olho para a porta do corredor. Incerta sobre o quanto eu deveria dizer a ela, ou quanto Joseph iria querer que eu dissesse. Mas já os vi interagir o suficiente para saber que ela não julga, não a menos que esteja fazendo uma piada. Se o amor puro existe, então esses dois têm de sobra.
– Eu também fui expulsa – digo.
Seus olhos se alargam quando ela parece entender.
– Você é a garota... – ela respira. – A que ele deixou para trás.
Minha voz sai embargada quando respondo:
– Sou eu.
Ela olha para minha aliança mais uma vez, antes que seus olhos voltem a encontrar os meus.
– Sei que Joseph parece durão, mas ele é sensível por baixo de tudo. Ele passou por tempos difíceis para lidar com tudo o que aconteceu. Quando cheguei à cidade ontem, era como se ele realmente estivesse vivo de novo, como se estivesse se deixando ser feliz pela primeira vez em anos. – ela me olha nos olhos e sinto que estou sendo examinada. – Meu filho venerou você um dia, Demi. Não o faça se apaixonar por você novamente.
Meu peito se contrai e mal consigo respirar.
– Somos apenas amigos – consigo sussurrar.
– Os olhos dele a seguem pela sala sempre que ele acha que você não está olhando. Quando ele fala com você, há uma gentileza na voz que eu não ouvia há anos. Estou velha, mas não sou cega. Percebo a forma como vocês se olham.
Tomo um grande gole de vinho e considero suas palavras. Lembrando-me do jeito como ele me esperou por horas fora da delegacia. Como ele sempre fica um pouco mais depois da aula e me ajuda a limpar.
Ai, Deus.
– Ele se esforçou muito para superar tudo o que aconteceu – diz ela. – Por favor, não o faça sofrer tudo de novo.

''Os olhos dele a seguem pela a sala sempre que ele acha que você não está olhando. Quando ele fala com você, há uma gentileza na voz que eu não ouvia há anos. Estou velha, mas não sou cega. Percebo a forma como vocês se olham.'' Mãe nunca se engana não é? estou impactada com esse capítulo.
Denise é uma fofa né? deu uns conselhos para a Demi.
porém agora a Demi ficará mais confusa pois não quer fazer ele sofrer.
um pouco mais sobre o aconteceu no passado dos dois.
será que essa ''amizade'' permanecerá por muito tempo?? hm, acho que não.
me digam o que acham nos comentários, ok?
espero que gostem do capítulo, volto em breve.
respostas do capítulo anterior aqui.

4 comentários:

  1. Amei o Capitulo esta perfeito
    To doida pra saber oq a Demi vai fazer mds quero outro capitulo pelo Amor. A cada capitulo q eu leio estou cada vez mais apaixonada por essa fic.
    Posta Logo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fico muito feliz que esteja gostando amor.
      Vou postar mais hoje, espero que goste.
      Beijos, Jessie.

      Excluir
  2. Que mulher!! Ela também superou muita coisa e sozinha!!! Joseph n é santinho

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Isso é verdade, os dois superaram muitas coisas.
      Beijos, Jessie.

      Excluir