20 de jan de 2018

begin again: capítulo 36


Does not matter anymore

Nenhum de nós fala enquanto Joseph dirige pelas ruas esburacadas do conjunto habitacional. O carro salta cada vez que ele passa por um buraco grande demais para evitar. No entanto, o silêncio não parece opressivo. Estou ocupada demais em pensamentos e acho que ele também está. Mal notamos os arredores enquanto seguimos rumo à zona nordeste da cidade. O borrão dos restaurantes de frango para viagem, de kebab, são apenas um pontinho no meu radar.
Quando estamos a algumas ruas de distância do meu apartamento, finalmente encontro minha voz.
– Como você sabe onde eu moro?
Joseph faz uma pequena manobra perfeita e estaciona o Fiesta no mais apertado dos espaços. Ou ele é excelente em fazer baliza ou não dá a mínima se bater o carro.
– O Nicholas me disse.
Nicholas está me devendo muitas explicações. Amaior parte delas é boa. Joseph desce, apertando-se entre o para-choque e o carro da frente. Quando chegamos ao meu prédio, percebo que estou hesitando.
Nunca convidei ninguém para subir antes, a menos que se conte Nicholas e Selena, quando me ajudaram a levar minhas coisas. É estranho, percebo, porque nunca tive meu próprio apartamento, até agora, nunca tive a liberdade de convidar alguém para entrar sem perguntar antes. Pela primeira vez, estou no comando. O pensamento não me assusta como eu pensava. Em vez disso, me anima.
Mostro a cozinha a Joseph quando passamos por ela. Subimos as escadas para o meu quarto, nos apertando entre a poltrona e a cama, e logo ele está em pé no meio do tapete. Vejo seu rosto quando ele verifica o entorno, observando as sobrancelhas franzidas, e a forma como o canto de seu lábio puxa para baixo.
Sinto um aperto no estômago.
– Então é isso. Mi casa. Pequena e elegante, mas toda minha. – pareço minha mãe falando, misturando os idiomas. É só quando ele olha para minha cama não muito bem arrumada que percebo onde estamos.
Joseph Jonas está no meu quarto.
Ai. Meu. Deus.
A última vez que estivemos em um quarto juntos, eu tinha 19 anos, inebriada com a paixão, meio zonza por ele ter me notado. Agora... não sei. Me sinto uma jogadora inexperiente em uma mesa de altas apostas. Calma na superfície, mas embaixo há coisa demais acontecendo. Não sei bem por onde começar.
– Xícara de chá?
Ele balança a cabeça e se senta na poltrona. Um segundo depois, Joseph se mexe, põe a mão debaixo da almofada e tira uma escova de cabelo. Tento não rir quando ele ergue as sobrancelhas.
– Ainda não desfiz as malas direito. Aliás, você não pode falar nada, já viu como é dentro do seu carro?
Ele tem a boa vontade de rir.
– Eu não estava comentando sobre suas opções de armazenamento, só me surpreendeu quando senti os dentes espetando minha bunda.
É claro que meus olhos vão automaticamente para lá. Eles não conseguem evitar. Quando olho, noto que Joseph está sorrindo, e há algo sobre isso que me dá calor.
– Peço desculpas pelo desconforto. – não é verdade. Palavra nenhuma.
Espero que ele esteja tão desconfortável quanto eu.
– Já tive momentos piores.
Meu telefone vibra. Pego-o e vejo o nome da minha mãe aparecer na tela. Fazendo uma careta, pressiono um botão e envio a chamada para o correio de voz. Para grande diversão de Joseph.
– Minha mãe – digo, como se explicasse tudo. – Acabei de contar a ela sobre a separação.
Ele lambe os lábios devagar e inclina a cabeça.
– Vocês duas não se dão bem?
– Eu a decepcionei. – não há necessidade de dizer por quê. Os olhos dele suavizam com a compreensão.
– Nicholas me contou o que você passou na sua casa. Sinto muito.
Olho para cima.
– Com você foi mais fácil?
– Você conheceu minha mãe, não conheceu? – ele sorri de um jeito perturbadoramente sexy. Rosto cheio de vincos, bochechas saltadas – Quando ela descobriu sobre as drogas, pensei que fosse me matar. Só que, mais tarde, ela foi muito legal, me ouviu falar sobre Digby e sobre você.
– Você falou de mim?
– O tempo todo. Ela deve ter ficado de saco cheio.
– Pensei que você fosse se esquecer de mim.
– Como eu poderia te esquecer? Passei a maior parte do tempo ou pintando você ou pensando em você.
– Mas você nunca me ligou.
– Nem você – ele diz simplesmente, sem malícia, mas recebo as palavras como um chute no estômago. Não há resposta, porque ele está certo. Eu estava muito presa ao meu próprio sofrimento para pensar em como lidar com qualquer outra coisa. Por que seria diferente para ele?
Ele olha para os meus lábios. Me sinto constrangida o bastante para desviar o olhar.
– O que você fez depois disso?
– Me mudei para a Califórnia e fiquei lá por alguns anos. Meu tio vive lá e conseguiu me matricular em um programa de Arte. A missão pessoal dele era me deixar limpo.
– Ele conseguiu? – esta é a resposta que preciso saber. Se Nicholas ainda está usando alguma coisa, mesmo que seja o mínimo do mínimo, negócio desfeito.
Após a devastação que testemunhei, não poderia lidar com mais essa. Ele fica imóvel, o rosto mascarado com seriedade.
– Você está me perguntando se ainda uso drogas?
Um pequeno tremor serpenteia pela minha espinha.
– Estou.
Ele se levanta e caminha até onde estou empoleirada na beira da cama, e se ajoelha para ficar com o rosto na altura do meu. Esqueço-me de respirar por um momento, quando ele envolve minha mão na sua, elevando-a até envolver sua mandíbula.
– Não usei nada durante oito anos, Demi. Tive umas recaídas no começo, mas consegui. Cerveja e cigarro ocasional agora são meus piores hábitos.
Há uma intensidade nele que me atrai. Me inclino para frente até que estejamos a apenas centímetros de distância. Inspiro e sinto sua colônia e um leve traço de sabonete. Por que ele sempre cheira tão bem? Tenho pouco tempo para pensar nisso antes que ele esteja suprimindo a distância final entre nós e, no momento seguinte, sinto seus lábios quentes colados aos meus. Macios e insistentes. Ele me tira o fôlego.
Joseph continua sem pressa, movendo-se lentamente, inclinando minha cabeça com as mãos. Entro no beijo, rendida ao calor dele e à necessidade que aperta meu peito. Percebo-me com vontade de rir e chorar ao mesmo tempo, mas me contento com enlaçar os braços em seu pescoço, puxando-o mais perto ainda, suspirando alto assim que sua língua desliza entre meus lábios. Luzes piscam atrás dos meus olhos fechados enquanto ele pressiona o corpo ao meu. Forte o suficiente para me fazer cair sobre a cama. Balanço no colchão até que ele me estabilize com as mãos. Pairando sobre mim, ele me envolve com os braços, olhando diretamente nos meus olhos.
– Vem aqui. – coloco as mãos em seus ombros e tento puxá-lo para mais perto. Os músculos debaixo de sua camiseta flexionam, mas ele não se mexe um centímetro.
– Tudo bem? Quero dizer, beijar você?
Concordo com a cabeça rapidamente. Poderíamos ter conversado sobre esperar e estarmos prontos, mas agora que estou deitada debaixo dele, sinto que isso é certo.
– Mais do que tudo bem.
Ele me beija de novo. Desta vez passo as pernas ao redor dele, levantando os quadris até que possa senti-lo bem ali. Seu gemido vibra pelos meus lábios e em minha boca, então faço de novo: eu me mexo de encontro a ele até que nós dois estejamos envoltos em uma névoa de necessidade.
Não sei quanto tempo isso dura. Em um instante ele puxa meu suéter até o pescoço e acaricia minha barriga com os dedos, depois com os lábios, de leve, o suficiente para me deixar louca. Se eu tivesse 19 anos, estaria me mexendo para tirar a calça jeans e ele estaria arrancando minha calcinha sem pensar duas vezes. Em vez disso, ficamos com carícias, toques suaves e amasso mais duros.
Sua coxa musculosa empurra entre as minhas e me aperto em torno dele, ainda o beijando forte e rápido. Preciso de mais. Eu poderia me afundar em sua pele e ainda assim não seria perto o suficiente.
Quando nos separamos, estamos sem fôlego, enchendo o quarto de suspiros altos. Joseph rola de cima de mim e fica de costas, jogando o braço sobre a cabeça. Meus lábios estão doloridos, latejantes. Percorro-os com o dedo. Me surpreende como estão inchados e sensíveis.
Ele sorri ao me olhar nos olhos. É hesitante, quase envergonhado e quero rir em voz alta. É como se nove anos desaparecessem e fôssemos Joseph e Demi dando uns amasso depois das aulas. Só que desta vez não há nada químico envolvido.
Por essa razão, o gosto é muito mais doce.
– Acho que é o que eles chamam de bolinar. – Joseph abre mais o sorriso e me puxa na curva de seu braço. Eu me aconchego, sentindo-me quentinha e protegida. – Os irmãos sempre nos advertiram quanto a isso.
– Eles falavam sobre danação eterna? – pergunto, traçando sua mandíbula com o dedo.
– Falavam, mas se esqueceram de dizer que tudo valeria a pena.
Fecho os olhos e pressiono o rosto em seu peito, apreciando o calor que irradia através da camiseta. Parte de mim quer perguntar o que isso significa, o que é isso que existe entre nós, mas seguro a língua, com medo da resposta. De qualquer forma, estou muito cansada para falar. As emoções do dia estão pesando demais na minha alma. Por isso deixo que ele me abrace e percorra minha coluna com os dedos, pressione o rosto no meu cabelo, enquanto sussurra palavras que não consigo ouvir.
Só por essa noite, não me importo com nada.

***

Ele vai embora logo após a meia-noite e eu o beijo por todo o caminho até a porta, agarrando sua camisa quando ele volta para o abraço final. Nossos lábios se curvam em risos quando nos beijamos. Não quero que ele vá, mas ele não pode ficar. Não, a menos que nós dois estejamos prontos para a próxima fase, e não acho que estamos. Ainda não. Sabíamos que era hora de parar as carícias quando ele começou a passar mais tempo tentando se arrumar do que me tocando, e seu rosto assumiu uma camada de desconforto.
Porém, não significa que foi fácil.
– Eu te ligo. – ele me beija de novo e corro os dedos pelos cabelos, puxando as mechas. 
– Logo cedo, antes de você levantar.
– Está bem, menina mandona. – outro toque dos lábios dele. – Vou levantar junto com o sol.
Há algo muito confortável sobre a nossa interação. É delicada e alegre, um forte contraste com a paixão aquecida de antes. Ele se inclina para um último beijo antes de sair, e fico à porta, observando-o descer as escadas. Quando ele vira no corredor, corro para a cozinha e o vejo andar em direção ao carro. Ele é apenas uma sombra na luz da rua, mas conheço aquele andar em qualquer circunstância. O mesmo passo quase arrogante de que me lembro quando éramos jovens.
Mal durmo à noite. Quando não estou pensando em Joseph, estou preocupada com Charlotte e rezando para ela estar segura. Deixei uma mensagem para Grace, dizendo que quero me encontrar com ela amanhã, sem saber o que mais posso fazer. Não posso ligar para a polícia e dizer que vi uma jaqueta suspeita dando sopa pela casa. Eles ririam de mim e desligariam o telefone para depois me prenderem por desperdiçar seu tempo. A única coisa a fazer é esperar até amanhã e rezar para que nada aconteça nesse meio-tempo.

***

Na manhã seguinte, meu telefone toca às 6h30 e converso com Joseph. Sua voz está carregada de sono, ouvi-la me dá uma alegria boba. Ele me fala sobre seu dia, reuniões sobre exposições e encomendas de obras e me pede para não chegar nem perto do condomínio sem ele.
Não é um ultimato ou uma exigência, apenas um apelo sincero. Quando vejo, estou concordando.
Já cheguei à clínica quando Grace liga. Ela está em uma visita domiciliar, mas se oferece para passar na clínica às 14h. Como é sexta-feira, não há nenhuma aula, e concordo prontamente, esperançosa por podermos finalmente resolver as coisas. Com algumas horas para eu matar e uma manhã tranquila pela frente, limpo o armário de arte, uma tarefa que normalmente evito nos melhores dos dias. Hoje, porém, é catártico. Jogar fora potes secos e pincéis que ficaram duros como pedra tiram minha mente dos problemas maiores.
Ainda estou aqui quando ouço uma batidinha na porta e viro a cabeça para ver
Grace O’Dell.
– Ah, oi. – aliso o cabelo para trás, sabendo que devo estar toda desarrumada.
– Já está na hora?
– Cheguei mais cedo. Meu último compromisso foi desmarcado. Você tem tempo agora?
Há algo em seus modos, certa tensão, que me deixa em estado de alerta. Sinto minha testa se enrugar.
– Claro, quer conversar aqui?
– Sim, tanto faz.
Nós nos sentamos nas cadeiras alaranjadas de plástico. Estão cobertas com tinta seca, mas Grace não pareceu notar. Em seu trabalho ela viu muito pior.
– Quer começar? – ela pergunta.
Por um momento, pareço voltar para seis anos atrás. Outra sala, mas o mesmo tipo de sensação. Já entrei perdendo. Não sei por que tenho a impressão de que ela está me julgando antes de eu começar a dizer uma única palavra.
– Acho que Darren Tebbit está de volta.
– O que faz você pensar isso? – suas palavras são abruptas, quase de desprezo.
– Vi a jaqueta dele no apartamento da Daisy. Quando perguntei sobre isso, ela ficou na defensiva, como se estivesse tentando esconder algo.
– Então você viu uma jaqueta. Algo mais?
Percebo como devo soar patética. Sem as informações de Cameron, sou apenas uma idiota paranoica, mas não posso dizer à Grace que ele está espionando.
– Não, mas sei que ele está de volta.
Grace ergue as sobrancelhas, mas continua olhando, como se eu fosse a megera nessa história. 
– Eu vi Daisy hoje de manhã. Ela me disse que você foi bisbilhotar no apartamento dela, fazendo todos os tipos de acusações.
– Isso não é verdade – protesto. – Era ela quem estava gritando. Grace levanta um dedo como se para me silenciar.
– Então fui para a escola de Charlotte e perguntei a ela se Darren estava por perto. Ela me disse que não o vê há meses.
– Mas Daisy ficou muito na defensiva. Quando vi a jaqueta, ela praticamente me empurrou porta afora...
– Analise pelo ponto de vista dela. Ela está se esforçando para fazer dar certo, se doando inteira para fazer o que é certo para Charlotte. Então você mete a colher e a faz se sentir julgada.
– Eu não meti a colher. Só queria ver se estava tudo bem.
– Por quê? – ela pergunta.
– O que você quer dizer?
– Por que as coisas não ficariam bem? É como se você estivesse esperando que ela falhasse e isso é inaceitável. Analisamos todos os riscos e demos a ela a chance de provar a si mesma. O disparo das suas acusações não está ajudando ninguém. Menos do que tudo, Charlotte.
Lágrimas começam a encher meus olhos. Fecho as mãos apertado com a frustração. Não é o fato de ela não acreditar em mim que pega, é o conhecimento de que Charlotte pode se machucar e não há nada que eu possa fazer para impedir.
– Você não vai fazer nada?
– Daisy me garantiu que ele não voltou. Essa jaqueta era algo que ele tinha deixado para trás, ela usava quando iria comprar alguma coisa na rua.
Estou ficando louca? Sinto que eu poderia estar. É como se eu estivesse vendo o mundo através de uma lente diferente, insistindo que o céu é azul quando todo mundo enxerga verde.
– Você acredita nela?
– Charlotte ainda estaria lá se eu não acreditasse? – a resposta de Grace é curta e grossa. – Não há nenhum sinal de que ele tenha voltado. Daisy parece saudável e sóbria, não acho que ela esteja usando nada. O apartamento estava arrumado e cheio das coisas de Daisy e Charlotte. Nada de Darren. – ela quase me fulmina com o olhar. Devo parecer desvairada aos seus olhos. A menina que pede ajuda por nada. – Acho que você ter ido lá fez mais mal do que bem.
Encolho-me no mesmo instante, como se tivesse levado um tapa na cara.
– O que você quer dizer?
– Daisy acha que você não queria o bem dela desde que ouviu nossas suspeitas sobre Darren. Ela colocou na cabeça uma ideia de que você vai tirar Charlotte dela. – Grace faz uma pausa. Tempo suficiente para eu absorver a informação. Um instante depois, ela solta a bomba: – Para o bem das duas, acho que você deve ficar longe delas.
Tento engolir o nó que está se formando na minha garganta.
– Ficar longe? – faço eco às suas palavras. – Por quanto tempo?
Grace dá de ombros.
– Até Daisy se sentir confortável com você por perto. No momento, ela não é sua maior fã.
– Mas ainda vou ver Charlotte aqui, não vou?
Grace se mexe no assento com desconforto.
– Não acho que seja apropriado.
– Não vou poder vê-la nunca? – a última palavra sai como um soluço. Tenho de cobrir a boca para impedir que se transforme em algo mais.
– É para o melhor. – a expressão de Grace suaviza quando ela vê como estou horrorizada. Inclinando-se para frente, ela estende o braço para dar um tapinha na minha mão livre. O gesto não faz nada para aliviar o nó no meu peito. Está ficando mais apertado agora que penso em não ver Charlotte.
Tiro a mão que me cobre a boca.
– Não é justo – sussurro. – Eu amo essa menina.
– Você quebrou a primeira regra – Grace me diz. – Você se envolveu demais. Não consegue manter a distância necessária.
Suas palavras me fazem querer gritar. Não preciso de distância, de julgamento ou de qualquer outra coisa que ela pensa que está faltando em mim. Existe uma menininha que não pode se proteger de um maldito imbecil, e não estou nem sequer autorizada a ajudar. O pensamento de ele chegar perto o suficiente para machucá-la me faz querer vomitar.
– E se eu a vir mesmo assim? – pergunto, tentando agarrar alguma coisa, quando existe apenas ar.
– Então Daisy tem todo o direito de chamar a polícia. Ela é a mãe de Charrlotte,
afinal de contas.

amores, desculpem pela a demora para postar mas só tive tempo hoje.
agora sobre o capítulo, que lindos os dois juntos eles finalmente estão se entendendo.
será que a Demi irá ficar sem ver Charlotte?
será que o Darren voltou ou não? o que acham?
espero que tenham gostado amores.
está acabando a fanfic, falta apenas 6 capítulos :(
me digam o que acharam nos comentários, volto logo.
respostas do capítulo anterior aqui.

14 de jan de 2018

begin again: capítulo 35


I have to protect her

Uma hora mais tarde, a sala de aula está vazia das crianças. As paredes pintadas de branco não mais ecoam a conversa animada, embora o chão salpicado de tinta seja prova de que elas estavam aqui. Dividimos a tarefa da limpeza, como de costume. Joseph pendura as pinturas estreladas no varal de secagem que amarramos no teto, doze folhas de papel, balançando na brisa suave. Parecemos ter caído de novo no velho ritmo de lavar, empilhar e fazer um ou outro comentário. É como se nós dois soubéssemos o que vamos falar
mais tarde. Por enquanto, podemos apenas não dizer nada.
Embora seja difícil não fazermos nem dizermos nada quando meu coração salta cada vez que Joseph passa roçando de leve por mim. A segunda vez que ele faz isso, eu me pergunto se é de propósito. Ele é muito bom em ser furtivo.
Quando penso em comentar, ele está do outro lado da sala, e estou abrindo e fechando a boca como um peixe demente.
Os sentimentos que tenho por Joseph são confusos. Uma mistura de nostalgia e desejo, talvez, mas também há algo mais. Um anseio de estar com ele, de saber o que ele pensa sobre cada assunto. Quero conhecê-lo de novo.
Quero que ele me conheça. A verdadeira eu. A que estou tentando suprimir desde a morte de Digby. A que eu pensei ter deixado para trás. Acontece que ela estava aqui o tempo todo, esperando que eu a reencontrasse.
E acho que gosto dela.
– Terminamos?
Joseph sorri para mim. Há uma mancha de tinta preta ao longo de sua mandíbula e, sem pensar, estico a mão para limpá-la. Como uma resposta reflexa, a mão dele circunda meu pulso, mantendo meus dedos apoiados em seu rosto.
Nenhum de nós respira.
– Você está com tinta aqui – digo, finalmente. – No rosto. Tinta preta. – estou falando coisas sem sentido? Nem sei mais.
Ele relaxa os dedos em volta do meu pulso e move a mão para cobrir a minha.
– Estou? – nem uma vez ele afasta os olhos de mim.
Minha palma pressiona com mais força a pele áspera. Sua barba está começando a aparecer na pele. Arranha, mas, de alguma forma, gosto da sensação. E enquanto fico aqui, meus pensamentos se dirigem de volta para aquela noite no apartamento dele, recordando a sensação do maxilar no meu pescoço, no meu peito, na minha bochecha. Queimava de uma forma muito sensual.
Relutante, puxo a mão e a deixo apoiada no quadril.
– Acho que é hora de voltar para o meu quarto glamoroso.
– Você está gostando de lá? – embora sua voz seja uniforme, seus olhos ainda estão dilatados. Gosto da maneira como eu o afeto.
– Foi um pouco estranho no começo, me acostumar a viver em apenas um cômodo. É bom ter um lugar que eu possa chamar de meu, apesar de tudo.
– O que você faz à noite? Divide a tarefa de cozinhar com os colegas de apartamento?
Eu rio, pensando nas embalagens para viagem espalhadas pela nossa pequena cozinha.
– Não, quase não os vejo, para ser sincera. Acho que eles preferem kebabs à nouvelle cuisine. 
– Você não fica assistindo televisão com eles?
– Não temos sala de estar. – foi estranho no começo, perceber que não havia espaço comum. Acho que o proprietário queria espremer cada centavo que podia de seu imóvel. O que costumava ser a sala de estar é agora um terceiro quarto – Só os vejo quando estou preparando uma xícara de chá. Não é tão ruim.
Ele enruga o nariz.
– O que o Simon acha? Ele não quer pagar por algo melhor para você?
– Não quero que ele pague. Não foi por escolha dele que me mudei. Não quero parecer que estou explorando.
Seria muito errado. Tudo o que Simon tem, ele possuía antes de nos casarmos. Se eu tentar pegar a metade, só estaria comprovando o que todo mundo disse, e não quero que Simon pense jamais que me casei com ele por nada além das razões certas. Mesmo no nosso ponto mais baixo, a última coisa que pensei foi levar dele o que ele tinha. O dinheiro é dele, não meu. Eu gostaria que continuasse assim.
Não que Simon concorde. Quando disse a ele para onde iria me mudar, ele praticamente teve um ataque. Mas não posso considerar a gentil oferta que ele me fez de um apartamento.
– Parece injusto que ele tenha tudo e você esteja vivendo em um quarto sujo. Você sabe que a oferta do meu quarto vazio continua em pé.
Ele é tão doce que tenho vontade de abraçá-lo. Seria tão fácil me mudar para o apartamento dele. Entrar em um relacionamento. Talvez nunca sair. Mas se for para Joseph e eu algum dia acabarmos juntos, não vai ser por falta de opção. Desta vez, quero que qualquer relacionamento esteja em pé de igualdade.
– Não tem problema. É apenas um lugar para eu ficar enquanto resolvo tudo. Eles não fazem muito barulho, não têm festas loucas. Só ficam na deles. 
Diane e Peter. Ainda demorei alguns dias para me lembrar de seus nomes. Essas são as pessoas com quem estou dividindo um banheiro.
– Bem, sempre que precisar escapar, você sabe onde estou. – ele não diz mais nada, apenas se aproxima e pega o paletó de um gancho no fundo da sala. – Quer uma carona para casa?
Tento não rir. Meu apartamento fica localizado no lado exatamente oposto ao dele, e Joseph sabe disso. Estou prestes a recusar quando uma ideia me vem à mente.
– Na verdade, você tem tempo o bastante para fazer um desvio? Queria verificar uma coisa.

***

O carro dele ainda fede como uma lagoa morna. Não parece ter sido limpo desde a última vez em que estive aqui, e me vejo chutando uma garrafa de Coca-Cola vazia, querendo saber se é a mesma que ficou no assoalho do carro por todo esse tempo. Ele entra pelo lado do motorista e estende as longas pernas para pisar na embreagem. Tento não ver os músculos de sua coxa repuxarem o jeans.
– Então, onde estamos indo?
– Você conhece o Whitegate Estate?
Ele se vira e me olha nos olhos.
– Só por reputação. – sua voz é baixa. – Por que você quer ir lá?
Respiro fundo e deixo a cabeça cair para trás no encosto de cabeça.
– Charlotte MacArthur mora lá com a mãe.
– Certo...
– Quero verificar se ela está bem. – olho-o de novo, e ele está esperando pacientemente que eu explique melhor. Por um momento, fico parada e tento descobrir as palavras certas – A mãe dela tem um namorado vai-e-volta e acho que ele pode já ter machucado Charlotte antes. Quero ir lá e ver se ele anda rondando.
– Ele foi embora?
Outra respiração profunda.
– Depois que mandou a Daisy para o hospital com ferimentos múltiplos. Agora me disseram que ele pode estar de volta.
– Por que não chamar alguém? A polícia ou o serviço social?
É uma boa pergunta, mas não uma que eu esteja particularmente satisfeita em responder.
– Porque fiz uma coisa idiota – admito. – Pedi a Cameron Gibbs para ficar de olho nela e me contar se Darren aparecesse.
– Darren é o namorado? – Joseph esclarece. Ele desiste de tentar ligar o carro e se vira para mim. – O que bate nelas?
– É. Sei que é idiota, mas não posso chamar o serviço social apenas para dizer que Darren anda rondando o condomínio. É apenas uma coisa que me disseram; eles ririam de mim. Se eu pudesse ver com meus próprios olhos, pelo menos eu teria algo para dizer.
– E se ele não estiver lá?
– Então posso ir para casa sabendo que Charlotte está a salvo.
Ele estende a mão e passa o dedo ao longo da minha bochecha. A intimidade do gesto é quase dolorosa. Sinto queimar a linha que ele traça no meu rosto.
– Certo, vamos. Mas se você sair do carro, vou com você.
Demora um tempo para chegarmos lá. A hora do rush impede nosso progresso a cada poucos quarteirões, e ficamos parados por longas filas, enquanto motos e entregadores passam por nós num tiro, costurando em meio aos veículos. Nenhum de nós diz muito: eu porque estou muito ocupada em me preocupar com Charlotte, e Joseph em se concentrar na rua.
Chega um momento em que ele se inclina para frente e liga o rádio, e o DJ da hora apresenta o programa com pedidos dos ouvintes. Começa a tocar The Fray, e nossos olhos se encontram. Essa canção estava nas paradas do ano em que Digby morreu. Conforme a bela melodia preenche o interior do carro, me pergunto se Joseph a ouviu tanto quanto eu.
– Odeio essa música. – ele desliga o rádio. “How to Save a Life” desaparece. – Tocava em tudo quanto era lugar naquele verão... eu não conseguia escapar.
E cada vez que eu ouvia, parecia que estava sendo julgada.
– Não era você que merecia julgamento. Você não fez nada de errado.
O silêncio é tão pesado que chega a doer. Posso sentir sua dor se dissolver na minha.
– A gente era praticamente criança, Joseph. Não foi culpa sua.
– Eu dei a ele a bala. De quem foi a culpa?
Paramos de novo em frente a alguns semáforos temporários. Alguém buzina.
– Você também me deu uma e ainda estou viva – digo com firmeza. – Foi uma daquelas coisas. A culpa não está nas suas costas.
– Também não está nas suas. Quando você vai perceber isso?
Fecho os olhos e consigo imaginar Digby fechando a mão em torno do comprimido quando Joseph lhe entrega. Nós três engolimos pílulas brancas minúsculas. Procurando êxtase e encontrando apenas a morte.
– Eu deveria ter dado ouvidos. Quando ele disse que estava passando mal.
Os dedos de Joseph tamborilam no volante em um ritmo silencioso.
– O coitado nunca teve chance. Ele foi diagnosticado com um defeito cardíaco congênito na autópsia. Você sabia disso?
Neguei com a cabeça, sentindo a náusea crescer no estômago do jeito que sempre faz quando penso nele. Naqueles dias.
– Eu li nos jornais. Saiu no inquérito.
Isso faria sentido. Parei de ler qualquer coisa depois dos dois primeiros dias. Ver a mídia impressa me difamando era mais do que eu poderia suportar.
– Ele ainda não teria morrido se não fosse pelo E.
– Verdade. Mas nenhum de nós sabia o que iria acontecer, nem ele. – Joseph inclina a cabeça para o lado, e olha para mim com uma expressão curiosa no rosto. – Você ainda pensa muito sobre isso?
– Penso – respondo. – Por um longo tempo, não consegui pensar em mais nada. Levei uma eternidade para me perdoar por não ir junto com ele naquela noite.
A voz de Joseph é fraca.
– Ele teria morrido de qualquer maneira. Você sabe disso, não sabe? Não foi culpa nossa.
– Mas ele não teria morrido sozinho. 
– Essa é a pior parte. Saber que ele estava sofrendo sem que ninguém cuidasse dele.
– Verdade. – os carros à nossa frente começam a andar e Joseph os segue, avançando pela pista com o Fiesta. – Mas é o que é. Você entende o que quero dizer? Em algum momento, você tem de aceitar que isso aconteceu e tentar seguir em frente. É o que venho tentando fazer.
– Eu sei. – ele está certo. Eu sei que está.
– É por isso que você trabalha na clínica? Para expiar a morte dele? Mostro um pequeno sorriso.
– No começo, eu acho. Agora trabalho lá porque amo as crianças. Elas são as vítimas nisso tudo, e os potenciais viciados do amanhã. Se eu puder fazer a diferença, tudo vale a pena.
– Você faz a diferença. Posso te garantir.
Quando paramos em Whitegate Estate meu coração acelera. As ruas estão vazias, exceto pelas pilhas de lixo cobrindo as calçadas e um carro queimado e abandonado, estacionado de qualquer jeito na beira da rua. Levo Joseph em direção ao parque, grata por seu carro ser dilapidado o suficiente para não chamar atenção.
Paramos perto do parquinho, onde um grupo de crianças está pendurando num gira-gira, com os cabelos jogando na brisa. Os balanços foram requisitados pelos adolescentes que os usam como bancos. Alguns fumam cigarros semiusados enquanto tentam parecer dolorosamente descolados.
Em alguns instantes, capto a visão de Charlotte agachada debaixo do escorregador, brincando de alguma coisa com uma menina, cabelos quase brancos, lindinha, aparentando ter mais ou menos a mesma idade.
– Você está bem? – Joseph pergunta. Não sei se é de preocupação genuína pelo meu bem-estar, ou apenas algo para cortar o silêncio. De qualquer maneira, respondo:
– Sim, só estou procurando Darren. Cameron disse que estava andando por aqui no outro dia.
– Só tem crianças aqui agora.
– É. – pergunto-me se Darren faz uma pausa quando os jovens chegam. Não consigo acreditar que ele faça, afinal os adolescentes são, provavelmente, seus melhores clientes. Ainda não consigo me livrar daquele gosto desagradável na boca. Se eu fosse vidente, diria que eu podia sentir. Mas há algo muito esquisito nisso tudo.
– Quer sair? Dar uma olhada?
Viro a cabeça e olho para as torres que cercam o espaço verde. Em pé como sentinelas, são idênticas em design, todas construídas com o mesmo concreto sem graça. Algo sobre elas me faz tremer.
– Podemos ir até aquele prédio? – aponto para o bloco onde Daisy vive, tentando não pensar sobre a última vez em que vim aqui. Parece que foi uma vida atrás – Quero ir lá ver a Daisy.
Até eu estou surpresa com minhas palavras. Elas saem antes de eu realmente ter uma chance de pensar, mas assim que saem, tenho certeza de que é a coisa certa. Subir e vê-la, talvez falar que Charlotte esqueceu de alguma coisa. Garantir que Darren não está de volta.
– Tem certeza? Ela não vai achar ruim se você aparecer na casa dela sem aviso prévio? – Joseph dá partida no carro mesmo assim.
– Não vou demorar. Só vou entrar e sair.
Quando subimos as escadas até o quarto andar, tenho uma sensação de déjà- vu. Meu coração dispara com uma mistura de esforço e ansiedade, e eu me vejo agarrando a mão de Joseph em busca de segurança. Quando ele para e observa um pedaço de grafite primorosamente desenhado na escada, posso recuperar um pouco o fôlego, admirar seu rosto.
– Você gosta de grafite? – pergunto.
– São os murais do nosso tempo. Realismo social em forma de arte. Acho fascinantes.
Entendo o que ele quer dizer.
– Você já fez algum?
Ele ri.
– Todo mundo já não fez?
Balanço a cabeça e solto um risinho.
– Eu não. Sou uma boa menina, lembra?
Sua voz é baixa. Grave.
– Lembro.
Saímos para a passarela familiar que leva ao apartamento de Daisy. Nada mudou nos meses desde que estive aqui. Ainda há vidro quebrado no chão. O apartamento 403 ainda tem janelas fechadas com tábuas. Há um movimento nas cortinas amareladas quando passo pelo 408, e suponho que um vizinho intrometido está espiando.
– Você se importa de esperar aqui? – pergunto a Joseph antes de virar a esquina para o corredor de Daisy. – Não quero aparecer sem avisar e ainda mais com um estranho. Não vai demorar muito, prometo.
Ele balança a cabeça, mas pega minha mão antes que eu possa sair.
– Se tiver alguma coisa errada, você grita, está bem? Vou entrar lá num tiro. – ele baixa a testa até encostá-la na minha. – Se cuida. É uma ordem. 
Concordo com a cabeça e mexo a dele junto com a minha.
– Você é um fofo. – porque, Deus, ele é. Muito fofo.
– Eu sei – ele sorri e me faz querer abraçá-lo. Enlaço os braços no pescoço dele e o puxo num abraço apertado. Um segundo depois, ele me puxa para mais perto e apoia as mãos nas minhas costas. Sinto as palmas mornas através da camiseta. É onde quero ficar. Segura nos braços dele, aquecida, aconchegada e muito, muito contente.
Mas não posso, não até ver por mim mesma que Darren Tebbit não fez uma reaparição repentina.
Assim que me separo dele, Joseph se afasta e se inclina contra uma parede. Caminho até a porta de Daisy e dou uma batidinha, mas tento não pensar na última vez que fiz isso.
Demora menos de um minuto para atender. Ela abre a porta com tudo, levando um cigarro aos lábios secos. Franzindo a testa quando percebe quem é.
– O que você está fazendo aqui?
– Eu só queria saber como você estava. Não tive chance de falar com você.
Daisy dá um passo ao lado e entro. Um alívio me envolve quando percebo que ela está aqui sozinha.
– Tenho telefone, sabia? – ela resmunga. – Eu estava preparando o jantar.
– Então não vou demorar muito. Está tudo bem? Charlotte está se adaptando bem?
– Ela está ótima. – os olhos de Daisy se estreitam. – Você não acabou de vê-la? Ela estava na aula, não estava?
Merda. Porra.
– Hum, estava, a gente não teve oportunidade de conversar.
O micro-ondas apita e nós duas o ignoramos.
– Por que você está aqui? De verdade.
Há momentos em que desejo que Daisy fosse estúpida e que eu não fosse tão burra. Ela sabe que não moro nem perto deste condomínio. Não existe motivo algum para eu estar aqui. Deve ser óbvio que vim ver como ela estava.
– Ouvi que Darren voltou.
Ela apaga o cigarro em um cinzeiro verde-pálido e depois vira o rosto para me encarar.
– Então você pensou em dar uma corridinha aqui e ser a Srta. vadia intrometida, não é? Ver como andam as pessoas pobres? Quer rir da nossa cara?
– Eu queria ter certeza de que ele não tem incomodado. Não depois de tudo pelo que você passou. – estou mentindo e ela sabe. Percebo pela forma como o lábio dela se curva para baixo. Ela cruza os braços firmemente sobre o peito.
– Bem, ele não está aqui, está?
– Estou vendo. – tento dizer isso em tom leve, mas acabo passando por tola. – Então está tudo bem?
Estou olhando para a porta, já desejando ir embora. Por que diabos resolvi vir aqui? Parecia tão simples: dar uma passada, dizer um “oi”, depois sair, sabendo que Darren não estava em lugar nenhum por perto de Daisy ou Charlotte. Agora tudo o que fiz foi colocar Daisy em perigo novamente, e sei que o tiro vai sair pela culatra de alguma forma.
– Vou chamar Charlotte para jantar, então você precisa ir embora. – Daisy pega o telefone.
É quando eu vejo. Pendurada casualmente no espaldar de uma cadeira. Uma jaqueta de couro preto, grande demais para ser de Daisy. Muito desleixada para pertencer a qualquer pessoa que não um homem. Vou em direção a ela, faço menção de tocá-la, mas recuo o braço num tranco. Minha coluna estrala com a súbita mudança de direção.
– Vai embora daqui. – a voz de Daisy é baixa. Um aviso. Ela solta meu ombro e dou um passo para trás.
– É de Darren?
– Não é da porra da sua conta. Agora saia daqui. – seu rosto está torcido de raiva. Ela dá um passo em minha direção e consigo sentir a ameaça.
– É da minha conta, sim. Ele voltou? Ele não deveria estar perto de Charlotte. Não depois do que fez da última vez. – minha respiração vem mais rápido, com uma descarga de adrenalina. – Não posso acreditar que você o deixou voltar.
– Ele não voltou, agora suma daqui e não volte. – ela me empurra e eu tropeço. Me agarro ao batente da porta para me apoiar – Não quero você perto da Charlotte, sua vadia intrometida. Fique longe de nós duas.
Ela está tão irritada que quase consigo sentir. A sala vibra com sua fúria. 
Seguro firme na maçaneta da porta e puxo com tudo. A porta se abre e bate na parede.
– É isso mesmo, dá no pé. E não volta! – Daisy grita atrás de mim. – Se eu ficar sabendo que você esteve perto dela, vou atrás de você.
Um grande estrondo me diz que ela fechou a porta, mas meu coração ainda está disparado quando chego a Joseph. Respirando rápido, corro diretamente para seus braços, precisando do conforto mais do que nunca. Minha mente está cheia de pensamentos sobre Darren e Charlotte, e o que devo fazer para tentar resolver essa confusão toda.
De alguma forma, saber que Joseph está aqui faz tudo parecer melhor. Quando andamos em direção à escada ele desliza a mão em cima da minha e aperta com força, sem nunca me soltar.
Só quando estamos no meio da escada sinto que posso respirar novamente.

e esse casal gente? que lindos, prometo que logo eles estarão juntos.
Demi certíssima de ver se a Charlotte está bem.
e a Demi mandou a Demi ficar longe da Charlotte e agora?
espero que tenham gostado amores.
me digam o que acharam nos comentários, volto logo.
respostas do capítulo anterior aqui.

10 de jan de 2018

begin again: capítulo 34


Charlotte

Duas semanas depois, eu me mudo para um apartamento compartilhado, carregando meus pertences por escadas sem-fim até chegar a um pequeno quarto com vista para um pátio interno. Incluindo latas de lixo, bicicletas abandonadas e um gato residente, o lugar tinha todos os elementos para garantir uma noite em claro. No entanto, não são tampas de lixeira batendo ou gatos guinchando que me deixam acordada, mas um colchão estranho e a falta de calor de um outro corpo. Para não mencionar o processo de pensamento hiperativo que simplesmente não cala a boca. Fico deitada no escuro e faço planos, determinada que seja apenas um recurso improvisado. Não posso viver como uma eterna estudante.
A semana seguinte é gasta em todas as coisas ruins nas quais a gente nunca pensa antes de se mudar: alterar meu endereço em tudo e mais um pouco, fechar contratos de prestação de serviço e encontrar forças para telefonar aos meus pais e dar a notícia. Quando finalmente consigo, acabo tendo que me inclinar na janela para conseguir sinal.
– Demetria, que ótimo que você ligou. – minha mãe está com aquele tom “temos visita” na voz. Está exagerando o entusiasmo. – Como vai, querida?
Quase posso imaginar o que ela está vestindo: alguma variação nos conjuntos de blazer e saia que ela sempre escolhe quando dá um jantar. Deve ter passado no cabeleireiro à tarde para lavar e secar, possivelmente, enquanto os bifes ficaram marinando na geladeira. Sobremesas foram compradas na delicatéssen local, porque no momento em que os convidados chegarem a ela, não vão notar que não foram feitas em casa. Mesmo que notem, vão estar muito alegres depois do vinho de sabugueiro do meu pai para se importarem.
– Estou bem. Escuta, mãe...
– E Simon, como está Simon? – ela sempre foi fã dele.
– É por isso que estou ligando.
– Ele está bem? O que aconteceu? – um toque de alarme envolve suas palavras.
– Não é nada disso. Decidimos nos separar. Eu queria passar meu novo endereço a vocês. – Sabe, para o caso de vocês quererem me fazer uma visita, adiciono em silêncio. Chance enorme.
Um silêncio longo e pesado, seguido de um suspiro profundo.
– Ai, Demetria. O que você fez?
Se eu viver até os 80 anos, ainda vou me sentir como essa criança pequena que nunca correspondeu às expectativas dos pais. Largo o corpo na cama e esfrego o rosto com a palma da mão. Por que tudo tem de ser culpa minha? Nenhuma menção do papel de Simon em nada disso.
– Foi uma decisão mútua. Nós dois concordamos que era melhor assim.
Há uma pausa por um instante, como se ela estivesse tentando absorver minhas palavras.
– Imagino que você vai querer voltar para casa como a filha pródiga – diz ela, irritada. – Vou ter que mexer com todos os meus cadernos. Acabamos de nos livrar da sua cama.
– Não quero voltar para casa – suspiro. – Você não precisa mexer com nada. Encontrei um lugar temporário para morar e estou procurando algo permanente. – esfrego a cabeça, tentando acalmar a dor aguda e latejante por trás da minha testa.
– Bem, tenho certeza de que você e Simon vão resolver o problema. – ela baixa a voz. – Basta usar uma saia curta e apelar aos instintos básicos dele. Isso é o que sempre faço com seu pai...
– Mãe! – não sei o que é mais terrível. O fato de que ela está tentando dar uma de cafetina para cima da própria filha, ou a súbita visão que tenho dela dançando em volta do meu pai. – De qualquer forma, é melhor eu deixar você voltar para os convidados. Tenha uma noite agradável.
– Como você... ah, sim. Mas precisamos falar sobre você e Simon...
Desligo antes que ela possa compartilhar mais sabedoria. Meu dever está feito, ela não vai ligar para a casa de Simon e levar um grande choque. Mentalmente, risco essa tarefa da minha lista com um floreio, respirando fundo para me acalmar.

***

Ganho vida sempre que estou perto de Joseph. Como um daqueles vídeos stop motion em que a gente vê uma flor desabrochando numa cena acelerada. Aberta e brilhante como se ele fosse o sol da primavera. Mesmo quando as crianças correm para a sala de aula com sua tagarelice animada e seus passos barulhentos, ainda sinto a força que me atrai para Joseph.
Ele está na frente da classe, falando sobre a noite estrelada de Van Gogh. Há intensidade em seus olhos quando ele menciona o amarelado das estrelas e o azul-escuro do céu. Ele convida as crianças a sair e olhar para o céu esta noite, e se lembrar que é o mesmo céu que Vincent viu tantos anos atrás. Olho ao redor da sala, espantada com a forma como as crianças estão atentas a cada palavra dele.
Todas, exceto uma.
Cameron Gibbs cruza o olhar comigo e fica me olhando, depois dá uma piscadela exagerada. Demora um minuto para eu me dar conta de que ele quer me dizer alguma coisa. Ainda mais tempo para entender que ele quer falar comigo em particular. Sinto o pulso acelerar assim que percebo que ele só pode ter uma coisa a me dizer, depois do favor que lhe pedi.
Joseph ainda está explicando como Van Gogh pintava quando estava internado no asilo psiquiátrico, um fato que faz as crianças mal piscarem e percebo que só há uma coisa a fazer.
– Cameron, você pode me ajudar a pegar algumas coisas no armário de materiais? – pergunto.
Joseph interrompe o discurso e olha para mim.
– Eu posso ajudar.
Em qualquer outro momento, eu teria aceitado a oferta logo de cara, porém, estou ansiosa para ouvir o que Cameron tem a dizer.
– Não tem problema, pode continuar. Só vai levar um minuto.
Quando chegamos ao armário, deixo a porta aberta para que não levantar suspeitas. Significa que temos de falar em voz baixa, mas vale a pena apenas para descobrir qual é a notícia. Há uma expressão de satisfação no rosto de
Cameron, como se ele soubesse que tem todas as cartas.
– O que foi?
– Descobri algumas coisas.
O que pensei que fosse presunção, na verdade é orgulho. Derrete um pouco meu coração.
– Sobre Charlotte? O que aconteceu?
– Eu vi aquele cara zanzando por lá. Aquele com o cabelo penteado pra trás e jaqueta de couro. O rosto que parece feito de papel machê.
Meu estômago despenca. Parece ser Darren. Ele deve ter tido problema com acne quando era jovem, porque seu rosto é crivado de pequenas crateras.
– Onde você o viu? – meu tom é urgente. Preciso saber se Charlotte está em perigo. – Você sabe se ele entrou no apartamento?
Cameron enruga o nariz e pensa.
– Não, eu vi o cara perto do parque. Vendendo as coisas dele, fumando com os amigos. – seu rosto se ilumina como se ele tivesse acabado de pensar em uma ideia brilhante. – Eu poderia ficar seguindo ele da próxima vez, como um daqueles detetives. Sou liso, sigo de fininho, ele não vai nem perceber.
O medo me arrepia até o âmago.
– Não! – sussurro quase gritando, meus olhos arregalados. – Ele é perigoso. Se ele pensar que você estava procurando por ele, ele vai ficar louco da vida. – como fui idiota, envolvendo uma criança em algo tão tolo. Sinto náusea com o pensamento de Cameron ser ferido por Darren. – Não chegue perto dele.
Ele olha para mim como se eu fosse louca.
– Eu não iria deixar que ele me visse.
– Cam – estendo a mão e aperto seu ombro –. Muito obrigada por cuidar da Charlotte. Você é um bom menino, mas não preciso que você continue vigiando. Está ótimo.
– Tem certeza? Eu não me importo. – ele quase parece decepcionado. Meu peito se aperta ainda mais quando percebo que ele acha que isso é um jogo. Algo para fazer quando ele fica entediado de jogar bola com os amigos. Se digo a ele o quanto Darren pode ser perigoso, ele vai ver a coisa toda como um desafio.
– Imagina, acho que você já me pagou duas vezes. Não quero acabar te devendo. – faço uma expressão de horror de mentirinha, esperando que ele não possa enxergar atrás dela.
– Acho que não. – Cameron dá de ombros. – Faz do seu jeito, então. Contanto que a gente fique quite?
– Estamos quites. – aceno com a cabeça. – Definitivamente.
Eu o dispenso com algumas caixas velhas de revistas que precisam ser recicladas, orientando-o para o a lixeira grande nos fundos da clínica. Quando volto para a frente da sala, Joseph me chama a atenção e inclina a cabeça.
– Tudo bem? – ele diz, movendo a boca, sem som.
Embora esteja muito longe de estar tudo bem, mostro um breve sorriso antes de concordar. Ainda não estou pronta para compartilhar isso, não até que eu pense nas implicações. Meus olhos gravitam na direção de Charlotte, que está dando batidinhas com tinta dourada no papel preto que Joseph lhes entregou, criando sua própria versão de Noite estrelada. As mangas estão arregaçadas, o suficiente para eu ver seus braços pálidos e sem marcas vermelhas ou hematomas. Verifico o resto da pele exposta: face, pescoço e pernas magras, mas não há nada para me preocupar.
Ela parece uma menina de 8 anos normal. Tão normal quanto sempre vai poder ser.
Claro, pode haver todos os tipos de horrores escondidos debaixo das roupas, ou pior ainda, sob a pele. Ando até ela e fico atrás, admirando seu trabalho. Charotte se vira e sorri para mim.
– Gostou?
– Está lindo. Aposto que sua mãe vai adorar. Ela pendura suas pinturas na cozinha? – tento imaginar o apartamento sombrio, esperando que a bagunça lá dentro há muito tenha sido limpa.
– Talvez. – seu rosto se ilumina como se eu tivesse sugerido algo para mudar o mundo. – Vou perguntar pra ela. A gente poderia prender na parede.
– Ou colocar no seu quarto novo? – sugiro.
Sua expressão fica sombria.
– A gente ainda não pintou. Minha mãe diz que vai pintar logo, logo.
– Imagino que você tenha ficado muito ocupada com a decoração. É bom estar em casa?
Charlotte confirma com a cabeça.
– Minha mãe me deixa ficar acordada até tarde e assistir TV.
Engulo em seco.
– E você falou com seus amigos? Imagino que eles ficaram contentes em te ver.
– Falei, é legal brincar no parque com eles.
O parque fica numa das extremidades do condomínio. É o mesmo lugar onde Darren tem rondado, passando droga para crianças.
– Você vai sempre ao parque?
Ela encolhe os ombros.
– Se o tempo está bom. Caso contrário, vamos na casa da Shona e jogamos Xbox.
– E sua mãe? Ela vê muito os amigos dela?
Um olhar inexpressivo. Charlotte se vira e acrescenta mais um pouco de tinta nas suas estrelas.
– Não sei. – eu me repreendo por ser tão óbvia. Ela deve pensar que sou louca, disparando tantas perguntas.
– Bem, talvez todos nós possamos sair e fazer alguma coisa legal em breve. Ir ao cinema ou algo assim?
Charlotte para de pintar novamente e olha para cima com um sorriso.
– Eu iria gostar – diz ela.
Eu também. Não digo, mas ela sabe. Já estou pensando em como posso trazer à tona o assunto de Darren e Daisy, sem deixar Charlotte na defensiva. A última vez em que a vi foi do lado de fora do prédio da assistência social, comemorando o retorno da filha. Será que ela realmente desistiria de tudo, colocaria tudo em perigo por causa de um canalha como ele?
Durante o resto da tarde, deixo Joseph assumir a liderança, enquanto fico sentada à mesa e tento pensar nas coisas. Minha mente parece cheia de algodão- doce: mole e pegajosa. Encontrar clareza é quase impossível. De vez em quando, Joseph olha para mim, e acho que deve haver alguma coisa na minha expressão que o preocupa. Mais de uma vez, seu olhar se transforma e se torna tão intenso que parece ver através de mim.
Não tenho a menor ideia do que fazer. Meu primeiro instinto é correr para o condomínio, pegar Darren Tebbit pelo colarinho e enchê-lo de porrada. Mas isso nunca vai acontecer. Vou acabar largada no fundo de uma vala em algum lugar. Eu poderia fazer uma visita à Grace, a assistente social, e contar a ela sobre os avistamentos. Mas assim que ela começar a me questionar e descobrir que estou confiando na palavra de um garoto de 13 anos, que já foi preso recentemente, ela vai acabar rindo e me colocando para fora da sala dela. Se falar que eu, na verdade, pedi a esse menino para ficar de olho em um criminoso e ainda não consigo acreditar que fiz isso, ela provavelmente iria surtar. Não importa o que eu faça, não posso enxergar uma boa solução para tudo isso.
– Um tostão por eles?
– Eu não quero te depenar. Meus pensamentos não valem tanto assim.
Joseph levanta as sobrancelhas.
– Você andou a quilômetros de distância durante toda a tarde. Perdeu uma encenação horrível e divertida do corte na orelha de Van Gogh.
Meu riso soa fora de tom até mesmo para mim.
– As crianças adoram um pouco de sangue. Talvez devêssemos tornar um pré- requisito que todos os artistas cortem fora uma parte do corpo. – olho-o nos olhos. – Exceto a presente companhia, é claro.
Ele sorri, mas não chega a atingir os olhos. Joseph está muito ocupado me observando com preocupação.
– Cameron Gibbs te contou alguma coisa?
Joseph é mais perspicaz do que eu achava. Maldito seja.
– Não foi nada disso. Ele não estava enchendo o saco, nem nada. Apenas pedi a ele para ficar de olho na Charlotte e ele estava relatando o que viu.
Joseph parece mais confuso do que nunca.
– Ficar de olho nela? Por quê?
A tentação de despejar tudo é esmagadora. Estou desesperada para compartilhar essa informação com alguém. Mas acho que metade é confidencial, e a outra metade passa uma impressão terrível a meu respeito.
– Nem sei por onde começar. – quando olho para cima, Charlotte está vindo até
nós, segurando a pintura para eu ver. A ação silencia efetivamente qualquer conversa que possamos ter a respeito dela, mas não sinto o alívio que esperava.
Em vez disso, sinto uma pontada de arrependimento. Quero ouvir o que Joseph tem a dizer, porque sua opinião é importante para mim.
Então, quando ele vira e balbucia “depois”, eu me vejo concordando com um movimento de cabeça.

será que Darren voltou? e será que o Cameron irá ver algo mais?
a mãe da Demi ama o Simon e não quer ver eles separados.
o que eu posso dizer é que virá emoções daqui para frente.
espero que tenham gostado amores.
me digam o que acharam nos comentários.
respostas do capítulo anterior aqui.